sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A casa do preto velho

Gritei:
" - Ó de casa, tem alguém aí?
Do interior do casebre, não demorou sair um preto velho, chapéu de palha, camisa vermelha, calça caqui com cinta de couro e botinas marrom, desbotadas pelo tempo...
" - O que os moços desejam e o que os apoquentam?"
" - Queremos um pouco de água, se não for muito incômodo, meu senhor!"
Respondeu o preto velho:
" - Entrem, por favor, e sente-se enquanto trago-lhes água fresca da bica do riacho, que desce da serra... É para já!"
Trouxe duas canecas de alumínio, que brilhavam de tanta limpeza, e uma moringa de barro com água tão fresca, que mitigou nossa sede e nos acalmou as palpitações arrítmicas...
Preto velho, perguntou o que fazíamos por aquelas bandas e mostrou-nos sua humilde tapera...

Vou relatar desde o começo:
Passeando a cavalo pelos campos floridos, com aquele cheiro característico de capim gordura, ao sol ardente do meio dia, paramos em frente uma casinha de pau a pique, coberta de sapé, com portas largas nas duas extremidades e janelas pequenas entreabertas, as paredes eram cheias de vãos, como se fossem rachaduras do barro batido aplicado, local ideal para o "habitat" dos barbeiros, inseto de hábito noturno, hematófago, transmissor da doenças de Chagas, muito comum na zona rural do Estado de Minas Gerais, principalmente... Talvez, seja por esta razão, que toda a casa era pintada com cal virgem, e no fogão a lenha, fumegando, folhas de eucalipto, verdes e secas, misturadas...
A casebre parecia que ia cair, tal a maneira com que o telhado, inclinado de maneira côncava, apresentava vários buracos que, se chovesse, era goteira para todo lado...
Havia um pequeno alpendre, devido ao declive da construção, coberto de palha de milho, artesanalmente, e sustentado por vigas de peroba e jacarandá, - madeira sem controle naquela época - oferecendo sombra, a quem dele se utilizasse para fugir dos raios do sol, inclemente e insuportável...
Percebemos que a casinha era retangular parecendo um corredor bem amplo, divido em duas partes iguais, um era sala e cozinha e o outro, quarto e banheiro anexo, do lado de fora, tendo como porta uma cortina de palha de buriti, cujo vaso sanitário, era um  buraco com taboas superpostas, entrelaçadas, mas, deixando um vão aberto para as necessidades da micção e defecção, a conhecida fossa séptica, que chamávamos de "casinha..."
Dois catres, com colchões de palha de milho e travesseiro igual, lençol branquinho como neve e colcha de retalhos, dobrada ao pé das camas, uma cadeira de vime trançado e um armário de bambu, compunham o mobiliário do exíguo cômodo do nosso personagem principal...
O chão era de terra batida e o fogão a lenha tinha, sempre, café no bule, que ficava no final da chapa de ferro, quentinho, mesmo no verão...
Na sala tinha uma mesa de madeira de lei, com oito lugares, toalha branca, um vaso de flores do campo e oito cadeiras de palhinha, trabalhadas em estilo inglês, doação de um consulente, que o fez, agradecido por favores recebidos, e na cabeceira, o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, aberto e com um marcador de paginas... cinco bancos, compridos, de madeira, dispostos um atrás do outro, na frente  da mesa, parecia esperar por visitantes...
Havia, na parede da sala, um quadro de Jesus abençoando as criancinhas, um de Chico Xavier e outro de Bezerra de Menezes, todos pintados à óleo...
Ate hoje, lembro-me da bondade daquele ser humano e da simplicidade de sua vida, oferecida para ajudar a quem dele precisasse, não havia nenhum resquício de luxo, e a sua aparente solidão era, na verdade, uma comunhão com as forças do Bem, do Amor e da verdadeira Caridade!
Assim, era a casa do preto velho! Foi lá que entrei em contato com Jesus e Seu Evangelho!


Sinal verde:
" Sofrer é muito diferente de fazer sofrer!
O perdão tem que ser verdadeiro, pois, ninguém engana a si mesmo!
Orai pelos que vos caluniam e vos perseguem!
É no silêncio da oração que encontramos a paz em nosso coração"


Ao sairmos da casa do preto velho, estávamos como que aliviados e em paz, pelos conselhos doados sem que nada perguntássemos...
Antes de mudar deste local, onde passei a minha adolescência, muitas vezes ouvi comentários sobre as atividades do "preto velho", que nada mais era do que um servidor de Jesus, na Sua Seara de Amor e Luz!

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