sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

RECEPTIVIDADE MINEIRA

Era o começo do mês de agosto, quando resolvemos ir conhecer uma fazenda, onde os amigos do proprietário eram, sempre, bem vindos, para saborear as comidas derivadas do milho, principal produto do plantio, a perder de vista...


Depois de ter andado a cavalo por muito tempo, e sentir no vão das pernas aquela dor inominável, misturada ao suor salgado e quente, - apesar da estação invernal - apeamos na entrada da sede onde morava o Sêo Joaquim Pereira, rico fazendeiro daquelas paragens do sul de Minas Gerais, a cachorrada veio ao nosso encontro dando as boas vindas, ( eram mais de oito... ) de diferentes espécies - pedigrees - e alguns vira-latas, por incrível que pareça, os mais bravos do bando, todos contidos pela voz metálica do dono da casa, que nos saudou à moda mineira, tão peculiar:
" - Bom dia, senhores, sejam benvindos! A que devo a honra da vossa visita?"
Galinhas, porcos e vacas malhadas, espalhavam-se pelos arredores, nos olhando com curiosidade e espanto, talvez, pelas nossas roupas coloridas e óculos escuros...
" - Nós soubemos, lá na cidade, que o senhor tem um munjolo e faz um fubá especial, então, viemos ver se podemos comprar um saco para fazer uns quitutes, cujas receitas, também, é de vossa cozinheira, que as inventou... de resto, queríamos conhecer o riacho de água gelada e transparente, que nasce na grota de sua fazenda, onde se pode pescar deliciosas trutas..." Dito isso, aguardamos, receosos, uma resposta negativa... e foi com alívio que ouvimos nosso anfitrião nos falar, pausadamente:
" - Uái, sô... O que me pede é fácim de atende... nóis temos que ir à pé até o cume daquele morro, ( apontando com o dedo indicador a direção correta ) onde fica o começo do serpentear das águas, que forma o "poço da onça pintada", pois, os antigos escravos deram lhe esse nome, devido ao fato de haver muitas onças, que vinham beber água nos dias encalorados dos nossos verões, constituindo um perigo aos desavisados pescadores de trutas, - que, no verão, só encontravam os felinos esfomeados - mas, não se assustem, pois, hoje em dia, não tem mais onça e para não ter surpresas desagradáveis, pois, mineiro não gosta de dar mole ao perigo, vou levar minha espingarda... Vai que..."
Zé Perera, como era mais conhecido, percebeu que a gente estava com as pernas "meio bamba", pelo fato de não termos intimidade com a fauna do lugar, e ainda mais, com a tal, "onça pintada", que já tínhamos ouvido falar, que era um animal feroz e já tinha comido muita gente, ( principalmente, escravos... ) quando proliferava naquelas adjacências, fazendo daquele recanto seu canto preferido...
Depois de muito andar, subir e descer morro, chegamos no poço, e qual não foi a nossa surpresa, quando deparamos com um lugar maravilhoso, cheio de pássaros, dos mais diversos matizes e trinados, nos embebecendo os sentidos na paz daqueles momentos inesquecíveis...
Ué, como vamos pescar? Só tínhamos uma tarrafa... e truta se pesca com minhoca, inseto, larvas e iscas artificiais, preparadas para tal finalidade. ( E tem gente que pesca com colher, mas, isso eu conto depois...) O Sêo Zé, sabia de tudo e mais um pouco... Pescamos varias trutas e as colocamos no embornal e, ao chegar na sede, após varias horas sem comer nada, estávamos varados de fome... aí, fomos convidados a tomar um banho, cujo chuveiro era uma lata de 20 litros, com água morna, suspensa e apoiada em duas vigas, que, ao acionar o lacre, despencava um jato de água, como se fosse uma chuva forte nos massageando as costas dolorida e tensa da caminhada de ida e volta - invenção prática de quem não tem os equipamentos do mundo moderno - em seguida, já descansados fomos convidados a uma lauta mesa de refeição caseira, onde degustamos as mais deliciosas comidas: frango à caipira com quiabo, arroz com açafrão, feijão tropeiro, farinha de milho e pimentas de varias espécies à vontade, além de um suco de frutas silvestres e uma variedade de sobremesas à base de milho... Após, foi servido um cafezinho passado coador de pano e "petit four´s" de milho, naturalmente...
Íamos nos preparando para ir embora quando nosso anfitrião falou, peremptoriamente:
" - Alto lá, senhores, vocês não vão saindo, assim , sem mais  nem menos, ainda falta os senhores apreciarem um elixir... esses foram feitos por mim mesmo: Tem de figo, jabuticaba, menta, laranja, abacaxi, frutas vermelhas, melancia, amora, jaca, gabiroba... e milho. Uái, sô!"
Já meio bebidos, por ter experimentado todos, solicitamos ao Ze Perera, que nos dissesse quanto lhe devíamos... e qual não foi a nossa surpresa, quando nos falou, com aquele sotaque mineiro, inconfundível:
" - Oceis num me deve nada... foi um grande prazer conviver com as vossas presenças na minha humilde sede, a casa que foi dos meus ancestrais, que sempre receberam bem os que por aqui apeavam de seus cavalos, jegues e burros, para pedir um gole de água para amainar a sede ou fazer uma visita, inesperadamente... pois é, vão com Deus e cuidado com as onças que gostam de aparecer no lusco-fusco do anoitecer..."
Entardecia! Agradecemos e partimos rapidamente, mas, devido as recomendações sobre as onças, acabamos por esquecer o saco de fubá que fomos "comprar..." E ao trote dos animais encilhados, apressamos a cavalgada para escapar do abraço da noite que se avizinhava, impiedosamente, aumentado o nosso calafrio emergindo do nosso medo... de onça pintada!

























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