As sombras, são reminiscências do pretérito da lida vivida na minha cidade de São Lourenço, em Minas Gerais , quando eu, inocente e adolescente, sonhava com um futuro e uma vida cheia de prazeres e alegrias, sem atinar com a maldade dos homens e a dura realidade da existência...
Encontrei-a sentada ao pé da escada de mármore de carrara, linda, sorriso enigmático e olhar estático...
Aproximei-me, devagarinho, como se fosse um gato palmilhando o tapete de veludo, cobrindo o salão de tacos em escama de peixe, desenhado pelas mãos do artífice marceneiro, que hoje não existe mais, e falei baixinho:
" - Posso ser útil em alguma coisa?" Silêncio! Nada mais do que o frio silêncio e nenhuma menção de um movimento sequer... foi, para mim, uma angústia inominável tal procedimento de aparente apatia e desprendimento, do que à sua volta pululava de vida... Já ia saindo, tão devagar quanto me aproximara, quando ouvi uma voz canora, que dizia: " Por favor! Não se vá! Fique um pouco ao meu lado... não precisa falar nada, só ficar ao meu lado... me sinto muito só, fique, por favor!" E antes de rodopiar nos calcanhares, voltei-me para a mulher mais linda que já havia visto com esses olhos que a terra ha de comer, e abaixei-me para ficar ao lado dela e verificar o que podia fazer ou ser útil, como já havia dito... após alguns minutos de quietude falei em tom ameno e meio paternal: " Então, podemos conversar? Meu é José e o seu? " E ao levantar o olhar para me fitar nos olhos, vi que descia uma lagrima daquele rosto, delineado por Afrodite, a deusa da beleza que, também, o era do amor e, talvez, por isso, tenha eu sido flechado pelo cupido, que devia estar por perto... pois, fiquei aparvalhado, meio abestado, parvo e "ensopado" de amor à primeira vista...
Gentilmente, ofereci-lhe minha mão para erguê-la do piso gelado, em que sentara, principalmente, porque era uma tarde de inverno, quando os ventos sopravam de todos os lados, entrando pelas frestas das janelas e portas, mesmo fechadas a sete chaves, para escapar das baixas temperaturas, que soem acontecer nesses tempos de minuanos vindo do sul, cortando nossa pele sensível ao gélido teor polar... com sua mão estendida para a minha, apertei-a com carinho e puxei-a para mim com a intrepidez dos cavalheiros da távola redonda, dos tempos do Rei Arthur, e do amor de Lancelot pela rainha, esposa do rei, que devia proteger, mas, o amor falou mais alto... assim, nascia um amor impossível entre mim e a mulher sentada na escada de mármore de carrara...
Mas, porque impossível? Porque ela era, simplesmente, a mulher do maior transgressor da Lei da minha cidade, pois, ele era banqueiro do jogo de bicho, que era feito à luz do dia e consentimento da polícia que, costumeiramente, passava para um cafezinho e "pegar" a propina, que ficava em um envelope, dentro de um embornal, em cima da mesinha de vime, que sumia como por encanto... do móvel, em um canto, quando o Agente de Lei saía e dizia: " Até amanhã, se Deus quiser. Fiquem com Deus!" Ironia ou paradoxo da vida? Deixa isso prá lá!
Laura, uma mulher de rara beleza, era a mais cobiçada pelos homens, que faziam suas apostas, sonhando com a riqueza fácil, com a "sorte grande", pois, os bilhetes da loteria federal eram vendidos, também, sem problemas... mas, ninguém tinha coragem de dar uma piscadela ou fazer um gracejo, senão... poderia "virar presunto" boiando no rio Verde, carcomido pelos peixes... Fantasia ou verdade, ninguém queria por à prova, aliás, ninguém duvidava...
Aquele encontro fortuito, tramado pelo destino, foi um marco em nossas vidas e na vivência de um amor à la Romeu e Julieta, cujo fim trágico não foi o nosso, pois, esse amor, de emoções e sentimentos elevados, teve seu apogeu no êxtase dos encontros, quando seu mantenedor financeiro se ausentava para seus compromissos "profissionais" na casa de jogos, chamada, também, de "Banca", que bancava os jogos feitos pelos cambistas espalhados pelos quatro cantos da cidade...
Mas, diz o ditado: "que tudo que é bom dura pouco..." e o nosso amor durou pouquíssimo, porem, foi infinito enquanto durou..."
Porque tudo acabou? É simples: Um dia, comecei a fazer jogos e bancar a metade dos mesmos, descartando somente a outra metade, ate que, um dia, deu uma centena e, pela argúcia de sentidos e sagacidade o banqueiro descobriu todo o esquema e me chamou para conversar, e como eu sabia que com ele não se brincava... o que fiz foi sumir: Anoiteci mas não amanheci, quer dizer saí na calada da noite e fui embora da minha cidade natal para a capital... e nunca mais voltei. Quer dizer:
O tempo, inexorável, passou... Um belo dia, voltei para rever os amigos, que um dia, eu deixei a chorar de tristeza, e a mulher, que muito amei, perdidamente, na solidão da missiva deixada no lugar de costume...
Fiquei sabendo que o "banqueiro", que diziam ser um matador, apenas, queria me conhecer e me dar trabalho na Banca, porque achava que eu era muito "esperto e inteligente..."
Mas, vai que... e na dúvida, optei por sumir do pedaço, com medo de ser despedaçado, quebrado e fragmentado, pelo amor e o pecado de "dividir os dividendos..." com o "Capo da mafia!"
Hoje, passado tanto tempo, José voltou a sua terra natal e viu que, tudo está diferente... e a maioria das pessoas já faleceram, inclusive, o Banqueiro do jogo de bicho, que Deus o tenha!
De Laura, apenas e só, doces lembranças!
Sombras... " Ce la vie!"
Obs: A colocação do personagem central ( José ) no texto, na primeira e segunda pessoa, é um estilo de escrita, para fazer entender que a vida imita a arte e a arte imita a vida! A realidade copia o sonho e o sonho copia a realidade, e entre todos e tudo ha uma intercessão!
Itanhaém, 20 de julho de 2o17
Jose Aloísio Jardim ( Sêo Jardim )
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