quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Chuva de verão

Chovia lá fora...
No começo, era uma chuva fina e sem ventania que, aos pouco foi crescendo, aumentando a correnteza da enxurrada, que descia nas ruas íngremes, carregando as folhas secas e os pequenos bichinhos colhidos em suas tocas onde passavam seus dias de início de primavera...
Saí de casa à pé, para comprar pão e leite para fazermos um lanche, como de costume,  nas tardes alvissareiras, quando sentiamos, a longos haustos, a brisa que vinha de além mar, confortar os que vivíamos nestas paragens da "Pedra que Canta"... E como chovia uma chuva chata, fria e fininha, não quiz levar guarda-chuva, achando que iria passar rapidamente, como sempre passam as chuvas de verão... Lêdo engano, deste candidato a caiçara itanhaense... Pois, é chuva fina que molha bôbo!...
A chuva foi aumentando, aumentando e, de repente, chovia à cântaros...
Fui pego bem no meio da avenida, pulando igual saci-pererê para me esquivar dos caminhos alagados, cujo enxurro descia, abruptamente, com grande força, pela sua própria natureza, carregando tudo que encontrava pela frente, quando fui assaltado pela paúra, que dominou meus sentimentos de medo das coisas que estes olhos já viram acontecer, nestes dias de águas torrenciais, que aparece de um instante para outro, sem aviso,  e sem controle humano...
Medo dos raios que despencam do céu e das nuvens pretas que desaguam na terra...
Medo de pegar uma gripe forte que podia levar-me à morte...
Medo de ser tragado por uma "boca de lobo", naquele redemoinho, que engole tudo que encontra: sacos de lixo de lixo, tocos de árvore, objetos não identificáveis e até gente grande que acaba morrendo entalada nas galerias inundadas... Mas, o que tinha mesmo medo era de pegar uma leptospirose, essa doença, transmitida pela urina dos ratos e leva qualquer um à óbito se não for identificada, rapidamente... Porém, os ratos são exímios nadadores, e dificilmente, morrem afogados, mas, que fazem xixi... Isso, eles fazem...
Todo encharcado, cheguei à padaria e comprei o que fora buscar... E, ao meu lado todo molhado um conhecido, meu vizinho, pediu um "esquenta peito", e bebeu de um só gole, dando uma sacudidela no corpo como se tivesse tragado uma labareda de fogo...
Até que me deu vontade de pedir uma também, mas, contive-me e solicitei um café "senza vapore",
porque, ao chegar em casa minha esposa iria falar, o que sempre falava, advinhando quando eu bebia com meus amigos, de "copo e de cruz": " - Voce bebeu, não bebeu?" Acho que era meu jeito de abrir o portão... O eflúvio etílico denunciava meus modos, grosseiros, de escancarar o portão... Acho!
A chuva que continuava, descia das nuvens, agora, em filigranas de pingos, translúcidos pelos raios do sol que viera brindar a natureza, em perpétua festa, na explosão das pétalas das flores que forravam o chão das ruas e avenidas, devido ao vento bravio que fizera dobradinha com a chuva forte, rolavam, também, rua à baixo, os frutos das árvores que cairam no solo...
Elevei meu pensamento a Deus e agradeci-lhe a prodigalidade de uma tarde de verão, na cidade de Itanhaem, sem que eu perecesse neste temporal, que acabara de passar, como passam as brisas cálidas das estações do ano...
Cheguei em casa, meio pensativo sobre os fatos relatados e dos meus medos, confessados, quando minha esposa, disse de chôfre: " _ Voce... Bebeu café, não bebeu?"
É, as mulheres, realmente, tem um sexto sentido!...
Ainda... Chovia lá fora, uma chuva fria e fininha... Eu estava todo molhado, com um embrulho entre os braços, e tremia de frio, mesmo com os raios de sol dando as boas vindas à natureza, sempre exuberante, apos a borrasca que havia me surpreendido, sem agasalho, sem nenhuma proteção!
Da próxima vez, não vou esquecer... De levar um guarda-chuva!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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