terça-feira, 5 de maio de 2015

A primeira cliente

A sala espaçosa, repleta de moveis de madeiras de lei ( perobas e carvalhos ) em estilo inglês, adornava todo o espaço, sobriamente, decorado com esmero, pois, tudo estava no lugar correto, sem permitir nenhuma crítica, por mais simples que fosse... O piso era todo atapetado com carpete importado das mais longínguas plagas orientais, os lustres cheios de pedras coloridas, entre o azul e o cristalino transparente, conferiam um ar de aristocracia dos tempos de antanho...
O título de Doutor, fora conquistado com muito suor e dedicação aos estudos, para alcançar o primeiro lugar da turma de formandos, em direito, em uma das Universidades mais concorridas e caras, que havia pelas bandas do centro oeste brasileiro...
Sonhava com a entrada do primeiro cliente no seu escritório...
Sentia-se indeciso, nervoso e com mil expectativas a ensombrar seus devaneios... como iria se portar? Embora tivesse tido várias experiências nos meios jurídicos, das mais famosas consultorias e feito estágios suficientes, para lhe assegurar um desempenho satisfatório, mesmo assim, estava balanceado com a chegada do primeiro cliente... Seu coração batia descompassado, suava frio mesmo com o ar condicionado ligado no último...
Toc. toc. toc., batiam, timidamente... autorizado, naturalmente, por sua secretária, que tinha ouvido os motivos da consulente, que pareciam ser justos, após a devida entrevista, que a comoveram de pronto...
E uma voz, cheia de ânimo e peremptória, falou assim:
" Entre, por favor!"
Abrindo a porta, adentrou-se uma mulher de semblante cansado, voz trêmula e passos trôpegos, com cara de quem não tinha feito nenhuma refeição... tinha os dentes falhados e os demais enfumaçados pela nicotina... seus olhos eram esbugalhados, com um certo pavor, que espelhava o que ia na sua alma cheia de incertezas, dores e perguntas, que não tinha coragem de fazer ao jovem causídico de "primeira viagem..."
Abrindo o diálogo, o neófito das leis falou assim:
" Em que posso servi-lhe, minha senhora?
" Sêo dotor, antes de falar o que me traz na sua presença, gostaria de saber se aceita o único pagamento que tenho para oferecer a sua senhoria..." E tirando de dentro de um saco de estopa, segurou pelos pés, uma galinha, dizendo:
" Sabe, Sêo dotor, para lhe pagar os serviços prestados, meus filhos ficarão sem comer no dia de hoje, pois, este é o único bem que temos para matar a fome de todos nós, porém, mais que a fome do corpo, que nós sentimos, é a fome de justiça, que nos faz perder as esperanças, até de viver... O meu companheiro é usuário de drogas e bate, todos os dias, em mim e nos meus filhos... a gente não aguenta mais... E as lágrimas desceram, copiosamente, dos seus olhos vermelhos e fundos, pelos sulcos da sua face enrijecida... Mas, era sua primeira cliente!
Conhecedor das Leis e das suas aplicações, ligou para a Polícia, solicitando uma viatura e o acompanhamento do Conselho Tutelar, para tomar pé da verdadeira situação, e foi junto com os mesmos verificar onde poderia ser útil à aquela mulher sofredora... Ajudou-a no que foi possível com sua influência, poder e bondade...  Fato resolvido e consumado, nunca mais teve notícias da sua primeira cliente!
Quando, um dia, precisou de uma babá para cuidar de seu primeiro filhinho, que Deus lhe concedera, na sua infinita misericórdia, quem é que bate à sua porta para candidatar-se ao emprego, que estava no anúncio de um jornal, periódico do município?
Ela! Ela mesma, aquela mulher, a sua primeira cliente, como não reconhece-la?
Ela, que recebera auxílio e mudara de vida, buscando na escola o ensinamento das letras, para ter uma profissão, como babá, em um dos cursos profissionalizantes espalhados pelas cidades, através de entidades, que se propõem amenizar o IDH!
A galinha? Bem, o advogado fez a sua primeira benemerência e deixou a galinha para a mulher, que, ao invés de mata-la, ganhou um galo de presente e, vieram os ovos, vieram os pintinhos e hoje, seus filhos criam galinhas: Vendem ovos... e vendem galinhas... e são donos de um belo sítio nos arredores de Itanhaém.
A primeira cliente - foi a babá dos filhos do causídico... Na verdade, uma segunda mãe dos futuros cidadãos Itanhaenses, que muito devem em amor e dedicação, à essa babá, a primeira cliente, que marcou suas vidas para sempre!
Oferta:
Digo-lhes, que:
Itanhaém - promove a intercecção de muitos destinos!
Ate de amores clandestinos...
De amor... turista!
De amor... à primeira vista!




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