Quando o anjo desceu do céu, por ordem do Senhor da vida, era uma tarde aziaga, cheia de ventos, totalmente nublado...
Chovia uma chuva enviasada cortando a epiderme de quem se atrevia a andar sem guarda-chuva neste dia...
Eram seis horas da tarde quando a noite desceu com seu manto negro, anunciando que seria uma noite de morte para quem não tinha muita sorte...
Os cães escondiam-se nos mais inusitados lugares e os gatos, que viviam pulando pelos telhados, não faziam aquela algazarra costumeira, cheia de miados estridentes...
Só percebia-se os piados das corujas que pareciam agourar os que as ouviam...
Os morcegos cortavam os ares e desviavam-se dos empecilhos que apareciam em sua frente, com o seu sonar apuradíssimo, mas, sem êxito de encontrar alguma presa fácil para sugar o sangue de algum animal exangue...
Era uma noite que pressagiava o terror e o horror dos que acreditam em assombrações e almas do outro mundo, fantasmas, mulas sem cabeça, saci-pererê e outras crendices do populacho parvo, zoilo, cretino e ignorante, mas, que eles existem, isso eles existem... Duvidas? Então, saia à noite, sozinho pelas ruas escuras em noite de lua minguante envergonhada, escondendo-se atraz das nuvens pretas anunciando uma tempestade... Ande por aí, sozinho... Diga que não tem medo e desafie o perigo, quer dizer, o inimigo!...
Passavam vultos, com grande rapidez, que nem dava para ver direito o que era, mas, teve um que passou com uma foice na mão como se estivesse pronta para ceifar alguma coisa ou alguém... O que não dava era para olhar com muita firmeza e encarar a "coisa..."
Aproximava-se o badalar da meia noite que o sino da igreja costumava tocar para todo mundo ouvir, quando alguém saiu de casa gritando como um louco, que tinha ouvido um barulho muito estranho vindo do porão da casa de madeira em que morava, a mais de meio século... Era mais parecido com um grito abafado e ameaçador... Era visível o desespero estampado na face do matuto caiçara, que gritava e corria prá lá e prá cá, com palavras desconexas, ininteligíveis...
Após receber atendimento da guarda municipal que viera em seu auxílio, e após acalmar-se, disse que, na verdade, tinha visto um vulto com uma foice na mão, e aí, deu asas a imaginação e falou que era a morte que queria levá-lo para o "purgatório", porque ele sentia-se culpado de ter roubado duas galinhas do vizinho e convidado o mesmo e alguns amigos, para comer uma "galinhada", receita de sua bisavó, que fizera, como era costume por aquelas bandas: roubar a galinha e convidar o dono da mesma para saborear o delicioso prato típico daquele evento, que deixava com "a pulga atraz da orelha", quando, quem criava galinhas, era convidado para saborear tal especialidade...
Era o remorso falando mais alto na sua consciência e por isso estava vendo e pressentido a morte chegar...
Mais calmo e convencido que tudo era imaginação, foi para casa e deitou-se... Sonhou um sonho meio estranho: Viu, na beira de sua cama um anjo todo resplandescente, que falou assim; " - Meu filho, a morte queria te levar, mas, meu superior pediu-me para afastar a morte da sua vida por uns tempos, porem, voce tem que me prometer que não vai mais roubar galinhas, estamos entendidos?"
Acordou e meio sonado, ouviu o sino da igreja bater as doze badaladas e, também, um vulto escuro, esvoaçante, afastando-se... mas, teve a nítida impressão que olhara para traz, com um leve sorriso encaveirado, como se lhe dissesse : " - Dessa, voce escapou!"
Virou para o canto da cama e adormeceu... sob a proteção da Anjo da meia noite!
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