quinta-feira, 20 de agosto de 2015

São Lourenço - Bairro Carioca - Onde moram as minhas recordações...

Heis que, as recordações aparecem, novamente, como quem não querem ficar, mas, vão entrando devagarinho, pelas frestas abertas do meu pensamento...
O cheiro de capim gordura nas bordas dos caminhos, que meus passos conduzem à casinha de sapé, na encruzilhada do morro, é um desafio a qualquer viandante desprevenido das agruras do íngreme terreno de terra vermelha batida...
Lá dentro do casebre, tinha um morador cheio de histórias para contar a quem quiser ouvir, sempre sentado ao pé do fogão a lenha, num tamborete, entrelaçado de galhos de arueira e pedaços de jacarandá, aparado de um tronco esquecido no quintal, que o tempo não consegue destruir, devido ser uma madeira de lei, como dizem os caboclos da redondeza... as louças e utensílios, brilhavam, penduradas nos ganchos de arvores, improvisados como se fosse uma decoração exótica e primitiva, mas, com um bom gosto da dava gosto de apreciar na sua singeleza caipira... O teto, em cima do fogão, era de madeira, caibros, taboas e cipos, amarrando tudo de tal forma, que não havia nem um buraquinho, por menor que fosse, para deixar passar os raios de sol e nem os do luar do sertão... porém, descia do teto, pontiagudos picumãs, que seu morador usava para cicatrizar os umbigos das crianças recém nascidas, como era a crença do povo mais carente do entorno do morro daquela ermida... O tempo que passa, célere, deixa recordações, que não querem adormecer, definitivamente, na minha alma de sonhador...
Recordo-me, com uma doce saudade, da minha querida namorada ( uma prima em segundo grau ), de nome Maria, que deixou meu coração, perdidamente enamorado, cheio de esperanças e sonhos de adolescente nos caminhos da puberdade e dos hormônios à flor da pele, em uma época de contenções e restrições aos sentimentos do amor romântico, extravasado entre dois seres humanos , pela religião tradicionalista, moralista e dogmática, além dos costumes morais inflexíveis, que não permitia o despertar desse sentimento, podando, com rigor, seus voos nos afagos e desejos, ás escondidas, exigindo que o mancebo se casasse com a donzela, que nem chegou a desonrar, apenas, se apaixonou e sonhou... Por isso, e outros tantos cerceamentos das emoções latentes do ser humano, me vi na condição de um proscrito, que enfrentaria a condenação e a prisão de uma união, onde não tinha eiras nem beiras, para sustentar aquela por quem meu coração vivia e palpitava, como um demente consciente do mal que causaria, se assim aceitasse tal enlace... 
E fugi! Fugi como o diabo foge da cruz e disse, em carta de amor - a última - que se a visse, mesmo que fosse fosse em sonhos, sairia correndo e me atiraria no abismo, para sumir de sua vida, portanto, pedi: Esqueça-me!
Fiquei com as recordações mais belas da minha juventude, já que ser feliz, com a Maria, não pude...
Não há arrependimento, devido ao meu ato de coragem, ao sacrificar o amor e a felicidade dos meus tempos de juventude, em detrimento dos sonhos e felicidade da minha amada, que, certamente, encontraria em outros braços uma nova razão para viver!
Bem parecido com um jardim, outras flores nasceram... foram os meus amores, que a vida me ofertou nas oportunidades infinitas de ser feliz, mas, o perfume de Maria - ficou - Aparecida... somente, nas recordações na minha vida!

Nenhum comentário :

Postar um comentário